Homem Árvore
A árvore sai de dentro da semente, ergue-se em direção ao céu, floresce, dá frutos. Esses caem numa queda ansiada pela terra. Na terra são acolhidos para tornar-se de novo árvore.
Dizia ele sobre tantos dos seus fazeres que aos poucos fui entendendo tantas coisas, entre elas, o que era a madeira, a matéria das árvores, e como tudo o que dela provinha era extensão de seu corpo.
Para a pesca com fisga (método indígena de se pescar) era preciso da árvore esguia, que cabia no punho fechado, na precisão da ação entre íntimos: uma vara de juçara. Na ponta o metal contrabalanceava e fazia jus à mestiçagem: vergalhão afiado em fogo a lenha amarrado com corda de embira. Corda feita da pele descolada e tratada de uma outra árvore no mais profundo ritual alquímico, que depois da trança metódica, unia dois mundos distantes: o metal e a madeira.
Pronta a fisga, ia-se a pesca. Uma pesca tão íntima quanto à relação daquele homem com suas árvores. Eram os pés na pedra, olhos através da lente do mar e seu braço de carne, osso, madeira, corda e metal colhia o fruto de toda a sua razão. Ele então voltava para casa sobre a madeira talhada: canoa e remo.
Ele certamente como toda criança que brinca a subir em árvores, tinha essas como o maior dos brinquedos, tanto que com o passar do tempo, além de quase todos os utilitários da sua casa, passou a transformar árvores em memória brincante. Eram réplicas perfeitas das simples e coloridas embarcações de pesca da nossa vila. Também havia moedores de cana, serradores que serravam num ritmo de maré, canoinhas, remozinhos, navios e porta aviões.
Era a história da vida de todos daquele lugar e pra não ser tão literal: gamelas, cuias, garfos, colheres, cestos e uma infinidade de outras árvores transformadas se encarregavam do resto da história.
A vida toda ele foi terra, mar e madeira. Um homem íntimo com sua origem, um dos últimos talvez. Um homem que era para o mar e entre eles, árvores. Um homem de chão, que levantava o chão entorno de si para conter os ventos e entre o chão e ele, árvores. E para conter a chuva, das árvores, nada mais que as folhas.
Era assim, tentando ser menos poético, um pescador arcaico que fez a própria casa e também fazia barquinhos de madeira, e quando não estava fazendo das árvores o mundo, estava subindo nelas para colher seus frutos e vender na feira.
Para a pesca com fisga (método indígena de se pescar) era preciso da árvore esguia, que cabia no punho fechado, na precisão da ação entre íntimos: uma vara de juçara. Na ponta o metal contrabalanceava e fazia jus à mestiçagem: vergalhão afiado em fogo a lenha amarrado com corda de embira. Corda feita da pele descolada e tratada de uma outra árvore no mais profundo ritual alquímico, que depois da trança metódica, unia dois mundos distantes: o metal e a madeira.
Pronta a fisga, ia-se a pesca. Uma pesca tão íntima quanto à relação daquele homem com suas árvores. Eram os pés na pedra, olhos através da lente do mar e seu braço de carne, osso, madeira, corda e metal colhia o fruto de toda a sua razão. Ele então voltava para casa sobre a madeira talhada: canoa e remo.
Ele certamente como toda criança que brinca a subir em árvores, tinha essas como o maior dos brinquedos, tanto que com o passar do tempo, além de quase todos os utilitários da sua casa, passou a transformar árvores em memória brincante. Eram réplicas perfeitas das simples e coloridas embarcações de pesca da nossa vila. Também havia moedores de cana, serradores que serravam num ritmo de maré, canoinhas, remozinhos, navios e porta aviões.
Era a história da vida de todos daquele lugar e pra não ser tão literal: gamelas, cuias, garfos, colheres, cestos e uma infinidade de outras árvores transformadas se encarregavam do resto da história.
A vida toda ele foi terra, mar e madeira. Um homem íntimo com sua origem, um dos últimos talvez. Um homem que era para o mar e entre eles, árvores. Um homem de chão, que levantava o chão entorno de si para conter os ventos e entre o chão e ele, árvores. E para conter a chuva, das árvores, nada mais que as folhas.
Era assim, tentando ser menos poético, um pescador arcaico que fez a própria casa e também fazia barquinhos de madeira, e quando não estava fazendo das árvores o mundo, estava subindo nelas para colher seus frutos e vender na feira.
Para ser exato, subir nos jambeiros. Árvore que tinha com ele coisas em comum: altura e autenticidade. Quantos vendem jambo na feira?
As árvores e ele eram com uma coisa só que em nada se diferenciava do resto mundo. Sua vida toda poderia ser traduzida em árvore.
E se essa vida tão incomum e mágica podia ser árvore, por que sua morte seria diferente?
Triste é quem tem das árvores na morte só o caixão, ele teve a eternidade.
Um dia ele, homem muito maduro, subiu o jambeiro, confundiu-se com os frutos e caiu de lá.
As árvores e ele eram com uma coisa só que em nada se diferenciava do resto mundo. Sua vida toda poderia ser traduzida em árvore.
E se essa vida tão incomum e mágica podia ser árvore, por que sua morte seria diferente?
Triste é quem tem das árvores na morte só o caixão, ele teve a eternidade.
Um dia ele, homem muito maduro, subiu o jambeiro, confundiu-se com os frutos e caiu de lá.
Marcio Garcia (texto em homenagem ao avô)

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