Gênesis
Quando deus fez a terra, nela criou muitos jardins mais ou menos como aqueles que chamam de Éden, mas para melhor entender como eram esses jardins, vamos pensar que eram Édens já que o imaginário ocidental não consegue extrapolar seus limites místicos.
Deus criou vários Édens porque como um bom artista, a imaginação era muita para um só. Em cada jardim colocou mulheres e homens. Nesses jardins as mulheres vieram antes dos homens porque era o mais lógico para deus e porque das mulheres todos nasciam.
Deus deu aos homens de cada jardim algumas regras, mas não eram apenas regras como comer ou não comer uma fruta ou algo que só servisse para testar a obediência e a fidelidade dos homens, eram regras que serviam para que os homens não criassem costumes que levassem a destruição dos jardins e assim não pudessem mais gozar de prazer eterno. Deus não queria que os homens, mesmo que sem querer, sem desejar, destruíssem seu paraíso e penassem por isso, pois ele não estaria lá para ajudá-los a consertar. Deus, depois de seu intenso empreendimento, descansaria numa contemplação eterna.
Os homens dos jardins de deus, inevitavelmente sábios por ser matéria direta da própria força criativa, se ocuparam dos melhores hábitos que os integravam a toda natureza dos jardins como se fossem uma coisa, em perfeita harmonia e criação.
Deus criou anjos antes de criar os jardins e os seres. Os anjos eram suas forças opositoras, aquelas que precisam existir para se ter uma criação justa. Deus ao criar a plenitude criou as forças que constituem qualquer coisa que é: seus opostos, seus equilíbrios.
Deus precisava do não existir para criar a existência, da destruição para que houvesse a criação. Deus criou o diabo, sua primeira ideia.
O diabo ou primeiro anjo, era a “não ideia” de Deus, a escuridão da inexistência anterior a toda criação e dele surgiu a luz e da luz a escuridão num ciclo eterno de coexistência.
A luz e a escuridão foram as primeiras matérias a exemplificar as oposições, delas surgiram todas as coisas e instantaneamente seus opostos. A luz iluminou a criação e a existência.
Deus criou e sentiu orgulho, e do orgulho nasceu a humildade .
Deus criou o tempo para que os homens não se cansassem da vida e amassem a transformação, deus criou a morte.
Deus se dispôs e por isso se sentiu cansado. Mas antes de descansar, mesmo confiando nos homens, deus deixou uma sentinela de vigia: ao confiar, deus criou a desconfiança.
Deus escolheu seu primeiro anjo como sentinela dos jardins e dos homens, deus escolheu o anjo da luz que atualmente chamam diabo.
O primeiro anjo era por natureza antagônico, pois nele deus deixou todos os princípios fundamentais da criação e consequentemente, seus opostos. Deus incumbiu o primeiro anjo de cuidar dos homens sem nada esperar em troca e, altruísta, o primeiro anjo sentiu inveja e destruiu um dos diversos jardins e se sentiu obstinado e ao se sentir obstinado o primeiro anjo se arrependeu, no arrependimento buscou a justeza, a precisão e por isso decidiu criar um novo jardim.
Ao errar, o primeiro anjo aprendeu um dos maiores princípios de deus para a criação: a perfeição. Mas agora como o primeiro anjo poderia criar algo perfeito se não havia nas criações, imperfeições? O primeiro anjo teve dúvidas e das dúvidas surgiram as certezas.
O jardim do primeiro anjo
Como sabido, no princípio deus criou vários jardins, quentes e frios, escuros e claros. Neles pôs frutos doces e amargos, afáveis e azedos. Pôs seres sob a terra e sobre a terra, na água e no ar. E no ar pôs canções e silêncios. E como já sabido, deus criou as mulheres e delas nasceram os homens e todos eles com os demais seres habitaram os jardins.
Em sua infinita criatividade, deus criou homens e mulheres diferentes entre si e satisfeitos em suas plenitudes. Os homens descobriram o amor, mas suas formas opostas nada mais eram do que diferentes formas de amar, afinal a primeira regra de deus para os homens era não ter hábitos que os afastassem de um gozo eterno. E os homens apenas amavam ou não amavam.
Deus coloriu os homens. Todos tinham uma cor e seja pelo amor ou pelo simples conviver, novas cores surgiam.
Para ajudar os homens com suas regras, deus deu a todos a satisfação que era como uma coberta suave sobre a plenitude dos seus jardins e assim os únicos movimentos que agitavam os homens eram as danças.
Diante de tal criação e tendo numa mão a dúvida e na outra a certeza, o primeiro anjo decidiu começar a criação do seu jardim que substituiria o primeiro feito por deus e destruído por ele.
Esperando fazer um jardim que se harmonizasse com os demais e mantivesse a plenitude, o primeiro anjo não conseguiu evitar as oposições. A princípio tudo ocorreu bem na criação de seu jardim, que tinha partes frias e quentes, escuras e claras, frutos doces e amargos, seres no céu e nas águas, sobre a terra e debaixo dela, mas a criação começou a desandar no momento de fazer os homens que habitariam o jardim: entre a dúvida e a certeza, o primeiro anjo criou o homem antes da mulher, mas dele nada surgiu. Então o primeiro anjo deu ao primeiro homem o desejo de criação, mas nada aconteceu: o primeiro homem só criava coisas inanimadas e apesar de amá-las, nada surgia desse amor, a não ser obsessões.
O primeiro anjo sentiu-se envergonhado por não encontrar solução para o problema e inconformado teve um acesso e arrancou do seu primeiro homem um pedaço qualquer e dele modelou sua primeira mulher e a esse homem e a essa mulher, o primeiro anjo ordenou que continuassem a criação dos demais já que ele estava cansado por extrapolar os dias de trabalho de criação. E o primeiro homem e a primeira mulher não amavam livremente pois carregavam a obrigação de se reproduzir e assim amavam apenas as coisas inanimadas que criavam. O primeiro anjo esqueceu sua função de sentinela eterno e como se colocou no lugar de criador, fazedor, também precisava descansar.
Ao tentar descansar, o primeiro anjo sentiu o peso de todas as coisas que precisou usar para a criação e elas eram a inquietação oposta a calmaria necessária a seu descanso. O primeiro anjo então decidiu guardá-las num canto do seu jardim. Mas onde? Uma vez que os homens do seu jardim não deveriam tocar os princípios da criação? O primeiro anjo não encontrou um lugar e decidiu escolher um qualquer, sob uma árvore qualquer. E para evitar que os homens encontrassem, deu a eles a regra de nem mesmo comer o fruto da tal árvore. Seus homens, nascidos entre a dúvida e a certeza, acataram mas questionaram. Então o primeiro anjo cansado de sucessivas tentativas de convencimento, deixou seus homens a sua livre escolha e descansou.
O primeiro anjo confuso em seu cansaço havia esquecido de dar a coberta da plenitude: a satisfação. E não só isso o primeiro anjo esqueceu de dar a seus homens; ele também esqueceu de colorir seus homens e os homens do seu jardim eram os únicos sem cor, pálidos, descoloridos.
Os homens do jardim do primeiro anjo, como esperado, desacataram a ordem de não comer do fruto e além disso, descobriram sob a árvore todos os princípios da criação, que pouco lhe serviram, pois eles não conseguiram entendê-los, muito menos usá-los, mas não os impediu de tentar iniciando um ciclo eterno de criação e destruição.
Insatisfeitos os homens sem cor, nascidos entre a dúvida e a certeza deixaram seu jardim e desandaram a caminhar pelo mundo invadindo e ocupando outros jardins enquanto deus e o primeiro anjo contemplam tudo num descanso eterno.
Marcio Garcia (texto e imagem)
Imagem: colagem digital

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