Ode a libertação
Nesses tempos de conter, todo querer vale a pena. Mas por que estamos com vergonha da vida? Com ódio da possibilidade de viver do outro?
Careta ou tresloucado, só uma coisa vale a pena.
Invejei o moço no vídeo interagindo com as esculturas da cidade… Noutros tempos eu fui assim, espontâneo e feliz, mas um dia a cidade se torna nossa Aí quem tem coragem de se ajoelhar junto a candelária ou se fazer de pisoteado pelo cavalo de Duque de Caxias?
Quantos olhares evitamos? Quantos julgamentos?
Nunca mais corri afoito para o mar, nunca mais deixei fluir o desejo mais sublime, mais lúdico, pueril... Mais ridículo, mais verdadeiro.
Na manhã de sol, quando quase nenhum dia tem sol: areia, mar e brisa fresca... O instante de ver o horizonte azul verdejante com ondas cantantes e espumantes desperta no fundo da barriga aquela vontade de correr gritando e se jogar. Como quase nunca nos jogamos na vida, se jogar afoito no mar é o ato mais ousado do oprimido ou uma alusão. E o que você faz diante do mar?
E aquela vontade sem destino que dá quando a lua cheia começa a surgir do alto da abóbada celeste² e joga uma luz dramática nas coisas? Parece que tudo fala e dá vontade de gritar para a cidade apagar a luz e deixar só aquela... Dá pra ficar horas vendo aquela luz, mas ninguém dança debaixo dela. Tudo anda normal e conduzido.
Estamos perdendo essa guerra contra o ódio e contra a caretice. Contra essa moral que nunca nos deu nada porque respondemos da mesma maneira, pagamos na mesma moeda.
Não estamos batendo com poesia. Não estamos apagando a luz para a lua. Não estamos ouvindo quem canta na rua, quem pinta na rua, quem anuncia e denuncia na roda de rima. Anda tudo sem alma e com razão.
Ainda sobre o medo e o ridículo (ou medo do ridículo):
Quando a cidade é nossa tanto que não podemos mais gozá-la, assim é o tempo. Não só os lugares como o tempo, quanto mais sabemos sobre, quanto mais o dominamos e nos apropriamos, mais cautelosos nos tornamos e menos gozamos. Não é só medo de perder o tempo, o lugar e nós mesmos, temos medo de ser ridículos.
Quantas coisas você gostaria de fazer agora se ainda fosse “jovem” e teme ser ridículo? Sabe, no fim é a mesma coisa: sua glória pode ser destruída com um verso banal. E se não houver glória, pior ainda, nem o que foi nem o que não foi: ridículo.
Se assim for ou se como ocorre, a verdade sobre nossa condição nos bater à porta: reza, canta, acredita estar a salvo e IMAGINA o paraíso: ridicularize-se com fé. Ou se a razão às vezes consoladora, aquela filosofia que também brada o seu “eu sei a verdade, dura, mas que aceito e encaro”: Recite Schopenhauer, ridicularize-se com seriedade.
Curioso é que no fundo, a verdade não importa, o que nos salva é a imaginação, no poema ou na oração. Nomes diferentes para a mesma roupa: Reze ou rime.

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